terça-feira, 22 de março de 2011

Padeiro surta ao mudar de profissão

(Gênero: Crônica)
Por Luciene Almeida

Desde muito cedo, Rodney Boaventura sabia que tinha um propósito em sua vida: ser padeiro. Aos seis anos de idade fez sua primeira réplica de um legítimo pãozinho francês, na aula de artes conquistando todos seus coleguinhas do jardim de infância. Quando completou 10 anos ao invés de pedir uma bicicleta como as crianças normais de sua faixa etária, surpreendeu os pais pedindo uma batedeira planetária. Aos 15 anos, seu talento para a conquista era algo peculiar e nenhuma menina resistia ao seu jargão: “Vem cá, meu pãozinho-de-ló”. Assim, amassando um pão aqui, fazendo uma empada ali, ele cresceu, ganhou notoriedade e adquiriu experiência considerável no mundo competitivo das roscas, bengalas e afins.

Apesar de parecer bastante convicto quanto a sua profissão, ao chegar na casa dos 18, teve sua primeira crise existencial. E foi nesse momento que decidiu que gostaria de vivenciar novas experiências. Convidado a trabalhar em uma lanchonete de primeira linha, em um shopping de São Paulo - desses que para comprar um hambúrguer você deixa o salário de um mês inteiro - Rodney ficou entusiasmadíssimo com esse desafio. Contudo, o que ele não imaginava é que ao assumir o novo emprego, sua vida social estaria seriamente comprometida.

Logo no primeiro dia, o gerente da lanchonete fez questão de detalhar qual era a função de cada funcionário:

- Aqui é tudo muito simples, meu rapaz. Os garçons servem as mesas. O chapeiro faz os lanches e você checa os pedidos. Alguma dúvida?

- Apenas uma – disse ele.

- Pois não, qual é? – quis saber o gerente.

- Qual é exatamente o nome da minha função?

- Boqueteiro – respondeu seriamente.

Um silêncio mortal se estabeleceu entre eles e a única coisa na qual Rodney conseguia pensar era: “Será que isso vai sujar minha carteira?”.

Sendo ele um rapaz de família, recatado e muito religioso, levaria mesmo algum tempo até se acostumar com a nova nomenclatura da profissão. Afinal, de padeiro para boqueteiro havia uma mudança minimamente considerável. Logo, o novo emprego deveria realmente valer a pena, caso contrário, nada justificaria o desgosto que causaria à sua mãe, quando a pobre descobrisse o que ele andava fazendo por aí.

Vítima das circunstâncias, Rodney Boaventura achou que a princípio devia manter sigilo sobre sua atual ocupação. Assim, sempre que avistava algum conhecido da época da escola ou algum vizinho curioso procurava desviar sua rota, dando voltas olímpicas no bairro para fugir das temidas perguntas pessoais.

Dia desses ao ir para o trabalho avistou dona Jurema, amiga de sua mãe saindo do mercado.

Ele, que geralmente gasta cinco minutos de sua casa até o ponto do ônibus, nesse dia levou cerca de meia hora para conseguir driblar a velha fofoqueira. E quando finalmente pensou que havia conseguido enganá-la teve uma surpresa, que ele prefere definir como a verdadeira “visão do inferno”: dona Jurema parada em sua frente com o cabelo arrepiado, segurando uma sacola cheia de papel higiênico e desinfetante.

- Rodney, quanto tempo não te vejo, menino! Sua mãe me contou que está de emprego novo.

- É...  – ele tentou despistar – Nossa meu ônibus está vindo!

- Caaaalma menino... Não é seu ônibus não. Você não pega todo dia o 574? Então, esse aí é o 653. Pode ficar sossegado. Me conta... O que você faz no seu novo emprego?

- Nada de especial, eu ainda estou no período de experiência.

- Sei... Mas o que você faz lá? Me disseram que você está trabalhando em uma fábrica de bonecas? É isso mesmo? Me conta o que você faz? – ela não parava de repetir.

Sem ter tempo para pensar em nada mais absurdo do que aquilo que tinha acabado de ouvir achou melhor confirmar.

- É. É isso mesmo! Faço bonecas!

- Nossa que coisa, não é mesmo?! Você sempre foi padeiro e agora arruma um emprego tão... diferente.

- Pois é... – disse ele tentando parecer natural.

- E o salário, compensa?

- Compensa sim! Eu ganho muito bem para fazer o que faço. Agora, se me der licença, vou indo porque estou atrasadíssimo.

Rodney deixou a velha falando sozinha e pegou o primeiro ônibus que passou. Mas, como desgraça pouca é bobagem, fatidicamente neste ônibus estava Chicão, filho da dona Jurema.

- Diz aí, Boaventura! O que tem feito da vida?!

- Tô trabalhando em uma lanchonete – respondeu desanimado.

- Entendi, mais o que exatamente você faz lá?

- Ah, eu trabalho numa área específica checando os pedidos dos clientes – ele não quis detalhar muito.

- Eu sei, eu sei. Você é boqueteiro – respondeu Chicão com certa familiaridade ao termo.

- É, isso mesmo! Como você sabe? – surpreendeu-se.

- Eu já trabalhei de boqueteiro em uma lanchonete também. Mas, no meu caso, antes de ser promovido a boqueteiro tive que trabalhar em vários setores da loja até ser promovido.

Aliviado por saber que pelo menos alguém conhecia bem a definição de seu cargo, Rodney sentiu-se confortável e pela primeira vez quis falar a respeito da profissão. Enquanto isso, os passageiros do ônibus trocavam olhares de condenação e, ele, totalmente empolgado com o momento queria falar mais.

- Então, eu não precisei passar por todo este processo. Já entrei direto como boqueteiro. Acho que é porque já tenho experiência anterior como padeiro, sei lá.

- Pode ser... Parabéns cara, você merece!

Alguns minutos depois, ambos se despediram e Rodney começou a pensar que realmente não tinha nada de mais naquele nome. Talvez fosse apenas impressão dele. Então, dá próxima vez que alguém lhe perguntasse sobre seu novo emprego responderia sem fazer rodeios. Mas...Nem foi preciso esperar muito. Dois dias depois de ter se encontrado com seus inoportunos vizinhos, sua própria mãe veio lhe questionar sobre os comentários que corriam pelo bairro.

Rodney tentou explicar a ela o que um boqueteiro faz de verdade; que aquela era uma profissão totalmente legalizada e que não havia nada de mal em ser boqueteiro; que o salário era realmente compensador. Enfim, tentou explicar que primeiro o funcionário é contratado para fazer serviços gerais e somente depois, quando consegue comprovar certo grau de confiança, é que se torna um boqueteiro de fato... Tentou argumentar ainda que tinha sido privilegiado por ter pulado algumas etapas do processo seletivo, pois afinal, assim que foi contratado foi direto para a boqueta. Contudo, nada adiantou...

Infelizmente, ele se deu conta de que sua mãe não tinha condições psicológicas e emocionais para compreender tudo aquilo. Rodney percebeu, então, que esse era um daqueles momentos irônicos da vida em que as pessoas sempre preferem acreditar no pior. Entretanto, não desanimou, pelo contrário, aprendeu “a duras penas” que o tal negócio de crise existencial era coisa para desocupados.

Por isso, hoje, religiosamente encerra seu expediente na boqueta e vai direto para a Praça da República onde cobra R$ 50,00 por hora.  Mas, claro, tudo muito honestamente!

Notas:
No ramo "Fast Food", os termos boqueta e boqueteiro significam:
Boqueta: Balcão
Boqueteiro: Pessoa responsável por conferir os pedidos que estão na boqueta.
Colaborou na finalização deste texto, David Almeida.
Se você gostou desta crônica envie e-mail para lucieny6@hotmail.com 

12 comentários:

Alvaro disse...

Ei! Lu!
Mais uma vez sensacional!
Adoro o jeito com que você escreve!
Seu Fã! Alvaro Vicente.

Luciene Almeida disse...

Comentário enviado para meu e-mail pessoal!

"Lú.......Adorei.....pude até esclarecer uma dúvida pessoal quanto ao cargo rsrsrs Ah!!!! um amigo meu tambem adorou. Ele se intusiasmou quando o funcionário pediu para definir o nome do cargo...
Além de ter sido um início trágico, de uma hora para outra, virou comedia e terminou como cultura... Conhecimento de uma nova função que para nós (fora do ramo fast food) era totalmente desconhecida".
Showwwwww

Mariana Santos
Sonda Software
Analista Funcional

Gustavo disse...

Meu, já conheci mina maluca, mais você...
Dá onde você tira essas ideias?
Muito engraçado o texto. Parabéns!

Valentina K disse...

Luciene,

Quero parabenizar pelo belíssimo texto!
Minha opinião, o texto discorre com uma facilidade de entendimento, fazendo o leitor dá muitas risadas, é uma leitura prazerosa para aqueles que gostam de ler.
Fica meu abraço!

valdislei disse...

muito bom,gostei mesmo lu,eu ja fui boqueteiro onde trabalho e realmente as pessoas num conhecem essa profissão,sei de onde tirou essa ideia e adorei o andar de sua cronica!1bj

fatima disse...

Achei muito legal, já estou virando sua admiradora.

Ana Matos disse...

Oiiii!!!

Olha eu aqui novamente...me acabando de rir, confesso que minha imaginação um tanto ousada...foi um pouco além....rsrsrs..
Do mais, dei muitaaaassss risadassss e....qual é o próxima???...
Vou passar para dá uma olhadinha todos os dias!!!
Um beijo...

Michelle disse...

Só você mesmo.rsrsrsrs
Muito legal, e principalmente engraçado. Vou começar a me preparar pra qdo os meus filhos for à procura de emprego, eu saber bem, qual é a profissão. Pois tem q ficar bem atento. rsrsrs
Você é doida!

edi disse...

Lú,
adorei vc é o maximo.
É muito muito legal

Atenciosamente Edi.

Kelly disse...

Realmente esta Historia foi muito criativa, me pergunto quem foi a fonte inspiradora desta vez?
Acredito que agora voce conversa com as pessoas e vai capitando as informãções para criar as historia, seja como for estou adorando!!!!
bjos!

joeder disse...

Oi, trabalho em uma concessionária de veículos de grande porte, e o local que divide o estoque de peças da oficina tb se chama boqueta, e o funcionario aqui tb é designado boqueteiro.
Vou te falar uma coisa, tenho dó do rapaz, fazem piadinha dele o dia todo...
sem contar que o mecanico imprime uma requisicao de peças para ele, e ambos assinam o pedido. abaixo vem discriminado as assinaturas do mecanico e do boqueteiro.

Luciene Almeida disse...

Joeder,
Acredito que todo trabalho, quando feito com dignidade, não deve ser motivo de vergonha pra ninguém.
O problema é que no coração dos homens há perversidade e tudo é visto com malícia.
Abraço,
Luciene